ESPECTADORES

Instalação, Museu de Lamego 2019





1
Dois homens com a cara tapada por uma tela e, ao lado, duas janelas abertas.
A sensação é esta: os dois homens não vêem. As duas janelas vêem. Como se a casa tivesse olhos e os homens não. É também curioso: um homem ficar temporariamente cego porque coloca uma tela branca à frente da cara.
Não vejo, por isso podes pintar a minha cara como quiseres. Poderíamos pintar naquelas duas telas brancas dois olhos – dois olhos em cada tela.
Alexandre está ao lado de Gustav, são amigos.
A tela branca à frente da cara significa isto: eles querem começar de novo. Tudo correu mal. A parte profissional e a parte amorosa.
Agora ali estão preparando-se para voltar à cidade, mas com uma tela branca à frente do rosto. Não vão ser reconhecidos. Disponíveis, portanto, para começar de novo.

2
Começar de novo no rosto. Tela branca à frente da cara. E começar de novo nos pés. Não sei para onde vou. Os meus pés estão disponíveis, estão em branco. Podem fazer qualquer itinerário, dirigir-se para qualquer ponto.
Alexandre e Gustav querem começar de novo. E para isso falta-lhes muita coisa, claro. Mas têm duas telas brancas, o que não é mau.

3
Tela branca no solo. É isso. Começar de novo. Tudo correu mal, mas Alexandre ainda está vivo. Pode fazer algo de diferente. Pode avançar por outro caminho.
Uma tela branca no chão é a abertura de um caminho. Por aqui! – diz a tela.
Imaginemos a floresta e dezenas de telas brancas no chão formando entre si um itinerário.
Quando estás perdido deves seguir o caminho das telas em branco, eis o que aconselha o velho sábio da floresta.
Uma tela branca no chão é a abertura de um caminho.”

Texto de Gonçalo M. Tavares in Noticias Magazine, 2014.





fotos de Vera Marmelo.