DEPÓSITO DE UMA NATUREZA ACTIVA


exposição individual na Casa do Artista, Lamego
três peças audiovisuais orquestradas por três músicos convidados:
I, Alexander,
Mr. Herbert Quain,
Manuel Guimarães
2017

"Vede que panorama de prodígio,
Real e imaginário,
Absurdo e verdadeiro,
Sob uma luz de louca fantasia,
A criar, a criar cenários de legendas."

Teixeira de Pascoaes






SOMBRAS DO TEMPO

                           
com sonoplastia de Manel Guimarães.
película de plástico suspensa
fragmentos de terra de rio e árvores mortas
som, 30' (loop)









STIMULATED/SIMULATE

                           
com sonoplastia de Mr. Herbert Quain.
vídeo com cor, HD, som, 15' (loop)
projecção sobre tela suspensa








OSSO PART II 

                           
com sonoplastia de I, Alexander / Pedro Barquinha
parede falsa e instalação de luz sobre vinil de espelho
fragmentos de terra de rio
som, 2' (loop)










Há uma desconfiança que nos perturba: toda a natureza é natureza morta. Sob o inebriamento das luzes da ciência moderna e do seu racionalismo universal, fomos adormecidos num sonho em que, por princípio, todo o Mundo é governado por leis imutáveis que apreendem a natureza como uma matriz de fenómenos transparentes e previsíveis. Emancipado pela técnica, é o Homem que inventa a natureza e se assume como o mestre desse gigantesco depósito, o depósito de uma natureza passiva e morta, transformada num mecanismo que, uma vez programado, continua controladamente a seguir as regras inscritas no programa de uma engenharia absoluta. É esse programa que lhe sacia as necessidades e assegura o progresso que colonizará todos os domínios do mundo natural e das suas imprevisibilidades. Do alto do seu império, o Homem não é apenas piloto e mestre, é também um contemplador: o espectador que observa, com uma distância segura, o cenário prodigioso desse depósito natural, continuamente arranjado, preparado, montado e artificializado para o satisfazer.

Apenas recentemente teremos começado a acordar desse sonho. Quando o impacto humano sobre a Terra é maior do que qualquer outro, pressente-se, enfim, que até o Homem faz parte desse depósito e que o acelerador do seu progresso é também o do seu declínio. A virtude do novo olhar é inseparável do desassossego que o aflige: o depósito rico, e até então silencioso, – a natureza como eterna alteridade da cultura humana – deixa de ser o pano de fundo, o meio envolvente, a figura distante. O que foi dado como seguro é, afinal, instável e, cada vez mais, indecifrável. Como consequência, o momento em que as preocupações ecológicas alertam para a frágil sustentabilidade do mundo natural é também o momento em que a sua dimensão de força maior e activa se torna evidente.

Através de três peças que constituem três momentos distintos, mas relacionados, de problematização destas tensões, “Depósito de uma Natureza Activa” surge como um laboratório livre no qual se joga a possibilidade de se reiniciar a ideia de natureza à luz das mutações presentes: pensar uma natureza activa implica pensá-la a partir da sua face irascível e selvagem, implica, no limite, pensá-la como qualquer coisa que, mesmo que já tenha sido lançada na vertigem do seu apocalipse, continua desgovernada a irromper sob as pegadas do Homem, indiferente aos seus crimes ou às suas esperanças, surda perante os seus cantos ou as suas preces.

Manuel Bogalheiro





Produção & criação: 
João Pedro Fonseca
Produção executiva:Afonso Lima, António Cardoso e João Pedro Fonseca
Coprodução: 
ZigurArtists
Sonoplastia: 
Manuel Guimarães, Mr. Herbert Quain e I, Alexander
Textos:
Manuel Bogalheiro e António Cardoso
Montagem:
João Pedro Fonseca e Paulo Fonseca
Comunicação: 
António Cardoso
Apoio institucional: Câmara Municipal de Lamego